kageokuri (revisado)
Parecia que 2006 tinha passado voando.
Na minha vida passada, eu nunca havia estudado em uma escola de elite. Na verdade, sempre fui meio atrasado nas matérias. Do ensino fundamental ao médio, faltava professor por greve ou qualquer outro motivo, e eu fui ficando cada vez mais defasado. Recomeçar desde jovem — primeiro no juku e agora na escola — exigiu que eu me esforçasse de verdade para reaprender.
Na maioria das histórias em que um adulto renasce como criança, ele é tratado como um gênio que sabe tudo. Se você perguntar a alguém quão difícil pode ser a prova de uma criança de seis anos, a resposta é: muito mais difícil do que se imagina. O raciocínio de um adulto é diferente. A lógica, as fórmulas e a história focada no Japão são bem mais complexas do que parecem. O juku em que a Hikari e eu estudamos me ajudou bastante, por mais rígido que fosse.
A Lilyvale era, basicamente, uma escola para formar futuros líderes. O foco em inglês com professores estrangeiros e em artes — teatro e música — servia para moldar o que eles consideravam a nova geração de líderes do Japão. A viagem de uma hora de trem quase compensava o alívio em relação aos monstros. O campus tinha bem menos daquelas criaturas rastejando, e eu aproveitava cada segundo ali.
— Hikari, Asahi! Vocês ainda não estão prontos? Vamos nos atrasar para a casa dos seus avós! Vamos, se apressem! — a voz da minha mãe soou carregada de urgência.
Era um momento raro: meu pai tinha um dia livre do trabalho para ir ver os avós. Para ser sincero, acho que aquela era a primeira vez que iríamos conhecê-los de verdade — pelo menos com idade suficiente para guardar lembranças.
Hikari estava ansiosa. Eu, nem tanto.
Pelo que eu tinha ouvido, meu avô era da velha guarda. Servira na Segunda Guerra Mundial, na campanha da China e, depois, na ocupação de Taiwan. Por mais que o Japão tentasse suavizar aquele passado, eu achava aquilo péssimo — principalmente porque muitos idosos ainda enalteciam aquele período. Não tinha muita vontade de conhecê-lo. Mas fora um pedido dele. Aos oitenta e seis anos, queria criar vínculos com os netos.
A viagem até Sannomaru foi demorada. Um dos motivos de estudarmos em Mito, suspeitava eu, era o desejo da minha mãe de nos aproximar dos avós. Quando chegamos, a casa se revelou uma construção antiga, parecida com as residências samurais dos filmes. Meu avô não aparentava ter oitenta e seis anos. Andava reto, com postura militar, e parecia dez anos mais jovem. Minha avó, trinta anos mais nova, deixava a diferença de idade ainda mais evidente.
A porta de correr se abriu. Fomos conduzidos até a sala principal de tatame. Minha mãe nos forçou a fazer uma reverência perfeita de noventa graus antes de nos sentarmos.
Ao me levantar, a primeira coisa que notei foi a atmosfera. Diferente da nossa casa em Tsukuba, aquele lugar antigo quase não tinha monstros menores. Porém, quando olhei para o meu avô, meu sangue congelou.
Atrás dele, projetando-se de sua própria sombra, havia uma criatura humanoide. Pálida, com os olhos bizarramente costurados e uma expressão de pura agonia e rancor. A figura permanecia imponente, como um repelente natural que espantava qualquer monstro menor daquela casa. Tentei ignorá-la, mas o nervosismo tomou conta de mim.
— Katsuro.
A voz do meu avô ecoou grave e firme. Ele avaliou meu pai com os olhos semicerrados.
— Vejo que sua empresa em Tsukuba vai bem. Mas espero que toda essa tecnologia ocidental não esteja deixando a mente dos meus netos mole.
— De forma alguma, pai — respondeu meu pai imediatamente, alinhando a postura com um respeito que eu raramente via em casa. — Eles estudam na Lilyvale. O ensino é rígido.
Minha avó sorriu gentilmente, servindo chá verde em xícaras de porcelana, tentando suavizar o clima.
— Ora, querido, não comece com o tom de quartel logo na chegada. Olhe como a Hikari é uma menina linda e graciosa. Ela tem os modos de uma verdadeira dama.
Minha mãe inflou o peito de orgulho. A calmaria, no entanto, durou pouco. Os olhos de falcão do meu avô se desviaram da Hikari e cravaram em mim. Senti um arrepio na espinha. Como se seguisse a deixa dele, a coisa pálida atrás de sua sombra também virou o rosto em minha direção, encarando-me fixamente — como se pudesse me ver através daqueles olhos costurados.
— E o menino… Asahi, não é? — o velho estreitou os olhos, inclinando-se levemente para a frente. — Por que você está tão rígido? Seus ombros estão travados.
Forcei-me a não desviar o olhar. Mantive os olhos fixos nele, engolindo em seco. Tinha um medo absurdo de que aquela coisa notasse que eu conseguia enxergá-la. Continuava tentando me convencer de que tudo não passava de loucura ou imaginação. O monstro não sumiu.
Minha mãe tentou intervir, nervosa.
— Ah, sogro, ele é apenas muito focado nos estudos! Passa horas revisando as matérias…
— Isso não é foco acadêmico, Miyabi. Isso é energia reprimida.
O velho a cortou com um gesto seco de mão. Minha mãe calou-se no ato. Ele voltou a me encarar.
— Um homem não pode andar pelo mundo guardando tanta tensão sem ter uma lâmina para descarregá-la. Se continuar assim, isso vai acabar quebrando o espírito dele.
O comentário me atingiu em cheio. Parecia que aquele velho estava aprontando alguma coisa. Passamos sete anos sem nos conhecermos de verdade, apenas com cartas ocasionais, e de repente vinha aquele convite. O instinto dele parecia notar que havia algo de muito diferente acontecendo comigo.
— Como eles já estão estudando aqui em Mito, o Asahi começará o kendo no Mito Tobukan a partir do próximo sábado — decretou, sem espaço para discussão. Olhou de soslaio para meu pai. — O mestre de lá é um Hanshi de alto nível. O kendo vai ensinar o menino a direcionar a mente para algo que não seja o que esses gaijin vêm ensinando. Vai alinhar a coluna e o espírito dele.
— Acho uma excelente ideia, querido — concordou minha avó, virando-se para a Hikari. — E para mantermos o equilíbrio e o prestígio da casa, a Hikari poderia começar as aulas de koto. O som da harpa tradicional trará a elegância que uma herdeira precisa ter.
Minha mãe sorriu radiante com a menção ao koto, já imaginando o status que aquilo traria nas reuniões de elite em Tsukuba. Meu pai apenas assentiu, aceitando a decisão do patriarca a contragosto.
Olhei para as minhas mãos apoiadas nos joelhos. Finalmente entendia por que meu pai quase nunca vinha ali.
Kendo. Uma arte baseada em regras rígidas e precisão absoluta. Ficava nítido que o avô detestava a ideia de nos ver aprendendo com estrangeiros — e menos ainda a direção moderna que meu pai escolhera. Minha mãe parecia radiante, pensando apenas no status, sem notar a expressão tensa no rosto do meu pai.
A ideia de passar mais tempo perto daquele velho me assustava, especialmente com aquele monstro pálido estático na sombra dele. Se eu estava mesmo preso naquele mundo bizarro cheio de criaturas — ou se tudo não passava de um delírio —, talvez ter uma espada nas mãos, mesmo que de bambu, fosse exatamente o freio e a arma de que eu precisava para sobreviver.
A volta para casa foi tensa. Meus pais claramente não queriam discutir na nossa frente. Assim que chegamos, minha mãe nos liberou para o quintal e foi direto para o quarto.
Ficamos brincando de kageokuri. Fixávamos os olhos na própria sombra por um tempo e, depois, olhávamos rapidamente para o céu, vendo a ilusão de ótica se formar nas nuvens. Como sempre, aquela sensação estranha surgia toda vez que o reflexo aparecia.
Hoje, no entanto, eu quase nem ligava mais para ela.
Só conseguia pensar em como a minha vida mudaria daquele ano em diante.
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