Kageoni
O **Capítulo 7** tem **1174 palavras**.
Após o confronto entre meu pai e meu avô no teatro, uma calmaria se instalou na família. Ficamos sem visitar a casa dos meus avós em Sannomaru. Para mim, foi um alívio. Não ter que ficar na presença opressiva do monstro de olhos costurados espreitando atrás do meu avô fez com que a paranoia que me sufocava começasse a retroceder.
A Lilyvale continuava sendo meu porto seguro, mas foi no dojo Mito Tobukan que as coisas realmente mudaram. O kendo deixou de ser apenas um lugar para eu extravasar frustrações e passou a ser algo de que eu realmente gostava. O mestre, Sr. Shimada, pareceu notar a diferença na forma como eu levava as aulas. Depois que meu avô se afastou, ele começou a variar os treinos em vez de apenas repetir os mesmos golpes.
Num sábado ensolarado de outono, o Sr. Shimada confiscou as shinai de toda a turma.
— Esgrima não é sobre força bruta. É sobre tempo, espaço e ritmo — anunciou, caminhando pelo tatame de madeira polida. O sol entrava pelas janelas altas, projetando sombras longas e nítidas de cada aluno no chão. — Hoje vocês não vão lutar. Vão jogar. Conhecem o *Kageoni*?
Pisquei, confuso. Aquilo era bem diferente do método tradicional dele.
— Mas com uma regra diferente — continuou, com um sorriso enigmático. — Vocês vão se dividir em duplas dentro deste quadrado. Quem for o oni não pode tocar no corpo do adversário. Para vencer, deve pisar firmemente na ponta da sombra do oponente. E quem está fugindo não pode deixar a própria sombra ser pisada. Comecem.
Fui pareado com Daiki, um garoto um ano mais velho que parecia nutrir alguma rivalidade comigo. Ele foi escolhido para ser o primeiro oni.
Quando o jogo começou, aquela velha sensação — a panela de pressão no estômago — surgiu silenciosamente. Eu já quase me acostumara com ela. Cada vez que o pé do Daiki passava raspando pela silhueta da minha sombra, meu peito dava um solavanco. Era uma agonia bizarra, como se a própria sensação estivesse viva. Para não ser pego, comecei a calcular mentalmente os ângulos do sol, a inclinação do meu corpo e a distância da sombra dele. Meu corpo se movia quase por instinto, recuando milímetros antes que ele conseguisse pisar no meu reflexo.
Pela primeira vez em meses, eu não estava travado de medo.
Eu estava me divertindo.
E, sem perceber, um sorriso de canto começou a surgir no meu rosto enquanto eu desviava.
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**POV Daiki**
Eu odiava admitir, mas sentia inveja do Asahi.
Sempre com aquela cara séria e indiferente, ele me irritava. Desde que entrou no dojo, parecia roubar toda a atenção dos professores. Aprendia rápido e já tinha me alcançado, mesmo eu treinando há mais tempo. Eu queria colocá-lo no lugar dele. Queria mostrar que trabalho duro vence talento natural.
Naquele dia, durante o *Kageoni* do Sr. Shimada, eu finalmente ia vencê-lo e tirar aquela expressão blasé do rosto dele. Mas, olhando para o Asahi, ele parecia… diferente.
— Peguei! — gritei, avançando com tudo e batendo o pé onde a cabeça da sombra dele estava projetada.
Não havia nada ali.
Num movimento absurdamente fluido, o Asahi deu um passo lateral, quase como se estivesse dançando. A sombra dele deslizou para longe do meu pé por uma fração de segundo.
Olhei para o rosto dele e engoli em seco. A expressão séria e indiferente tinha sumido. Ele estava totalmente relaxado, olhos fixos nos meus pés, com um sorriso travesso e quase infantil que eu nunca tinha visto nele. Era como se lesse meus movimentos antes mesmo de eu pensar em dar o passo. Toda vez que eu achava que ia encurralar a sombra dele no canto do quadrado, ele inclinava o corpo de um jeito estranho, encolhendo o próprio reflexo ou usando a luz da janela para me enganar.
— Como você faz isso? — resmunguei, já ofegante, sentindo a raiva subir.
O Asahi não respondeu. Apenas deu uma risadinha leve e continuou se movendo pelo tatame, flutuando como se dissesse que eu nunca conseguiria vencê-lo.
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**POV Asahi**
O treino terminou e a sensação que se acumulava no peito começou a diminuir. Ela assentou de forma morna, deixando-me incrivelmente leve. Eu estava exausto, mas a mente estava limpa. Já me acostumara com aquela sensação indo e voltando. Começava a achar que era só adrenalina. Sabia que tentar racionalizar demais não me levaria a lugar nenhum.
Caminhei até a sala ao lado para buscar a Hikari na aula de koto. Quando abri a porta de correr, o som melancólico e dedilhado da harpa tradicional preencheu o ambiente. Minha irmã estava sentada de joelhos, concentrada, movendo os dedos com precisão cirúrgica sobre as cordas. Ela sentia muito mais do que eu a separação da família com os avós. Tinha se aproximado bastante da nossa avó, e aquele distanciamento a afetava profundamente. Não demonstrava muito em palavras, mas dava para perceber pelas músicas tristes que tocava.
Ela me viu pelo canto do olho, errou uma nota e abriu um sorriso forçado, tentando disfarçar. Acho que, de alguma forma, sabia o quanto eu ficava tenso na presença do avô e tentava me poupar.
Sorri de volta, relaxando os ombros.
Ainda achava que estava ficando maluco com aqueles monstros e com a pressão interna que se agitava perto deles. Mas sabia que aquela calmaria não duraria para sempre. Vendo o que a Hikari sentia com a saudade da avó, eu sabia que o peso voltaria cedo ou tarde. Uma hora ou outra teríamos que vê-los de novo.
Olhei para as minhas mãos.
Decidi que não importava o quão bizarro o mundo parecesse: eu ia aguentar. Pela Hikari. Ia continuar treinando. Continuar jogando. Mesmo sabendo que aquela sensação pudesse ser real e estivesse se acumulando, eu torcia para que ela não explodisse no momento errado.
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