Iro oni (versão editada)
POV Katsuro
— E é nessa escola que você quer que nossos filhos estudem?
Miyabi elevou o tom, os olhos brilhando de indignação.
— Aquilo não é uma escola internacional, é uma Free School disfarçada! Eles nem têm um prédio de verdade. As crianças ficam discutindo com os professores como se fossem iguais. Onde já se viu uma coisa dessas? Desse jeito, o que nossos filhos vão virar? Um freeter? Alguém sem emprego fixo e sem futuro?
— Eles estão ensinando as crianças a pensar por si mesmas, em vez de apenas seguirem ordens como robôs. Esse é o futuro — respondi, mantendo o tom calmo, mas firme.
— Aquela escola levou essa palhaçada de “educação relaxada” longe demais! É uma anarquia total! — ela cruzou os braços, irredutível. — Meus filhos não vão estudar naquele lugar de jeito nenhum. Vou ligar para uma amiga ainda hoje e ver se consigo uma vaga para eles fazerem o teste na Lilyvale Elementary, em Mito. Pelo menos lá terão uma educação decente e o status que merecem.
Miyabi saiu pisando firme da sala.
Sozinho, soltei um suspiro pesado e massageei a ponte do nariz. Internamente, me arrependi de ter insistido tanto na TIS. Depois de ouvir tantos elogios de engenheiros estrangeiros da minha equipe, imaginei que a escola fosse bem mais estruturada. Miyabi tinha razão: aquilo parecia uma bagunça sem futuro.
Agora eu precisava garantir que o orgulho ferido da minha esposa não virasse um colapso doméstico — e que meus filhos tivessem o melhor caminho possível. Peguei o celular e disquei para a minha assistente.
— Sato-san? Preciso que cancele meus compromissos da próxima terça-feira à tarde. Quero uma reunião diretamente com o diretor da Lilyvale, o Sr. Yuji Okubo.
Fiz uma breve pausa, alinhando a postura mesmo estando sozinho. Eu sabia exatamente como a elite de Mito e Ibaraki funcionava.
— Deixe claro para a secretaria dele o quanto a nossa empresa está disposta a contribuir financeiramente para o fortalecimento e expansão da comunidade escolar. Reforce que lamento profundamente que meus filhos tenham perdido a data oficial de inscrição, mas que gostaria muito que eles fizessem parte da história do segundo ano de formandos da instituição.
Faça acontecer.
POV Hikari
Meu primeiro dia de escola finalmente chegou!
A escola ficava um pouco longe de casa, mas agora podíamos ir de trem todo dia, o que eu achava o máximo. O Asahi, por outro lado, não parecia tão animado. Bem… ele sempre tem essa cara meio emburrada quando não está brincando comigo no quintal.
Toda a minha ansiedade sumiu quando descemos na estação e caminhamos até lá. O prédio parecia ter saído de um filme estrangeiro: todo de tijolos vermelhos, com um jardim e um pátio completamente diferentes de tudo o que eu já tinha visto. Tinha certeza de que ia ser divertido estudar ali.
A primeira aula foi engraçada. O professor não falava direito o nosso idioma e ficava o tempo todo fazendo mímica e caretas para tentar se explicar. Eu não aguentei e acabei rindo. Aquela escola era bem mais divertida do que o cursinho. Logo nas primeiras horas já tinha feito várias amigas novas: Yui, Keiko, Kiko e Sayoko.
Mas a melhor parte do dia foi quando o sinal tocou para o recreio.
— Asahi, venha! Vamos brincar de Iro Oni! — gritei, correndo até ele sem conseguir conter o entusiasmo.
— Tá bom, tá bom… vamos — ele respondeu, soltando um suspiro leve enquanto vários colegas se reuniam ao nosso redor.
Eu abri um sorriso enorme.
Tinha certeza absoluta de que aquele seria o melhor dia de todos.
POV Asahi
A Lilyvale não era exatamente o que eu esperava de uma “escola internacional”, mas também não era tão diferente.
Na verdade, a única razão de estarmos ali era porque minha mãe tinha ficado furiosa com a proposta do meu pai. Foi a primeira vez que a vi tão brava com ele. A escola tinha um sistema de casas e monitores mais velhos cuidando dos mais novos — algo parecido com o que eu lembrava de histórias britânicas da minha vida passada. O que realmente me agradou foi o alívio: pela primeira vez, Hikari e eu estávamos longe da rotina maçante dos cursinhos e do controle rígido de casa.
Por isso, ali estava eu, brincando de Iro Oni com várias crianças.
— Bora, pessoal! Vamos escolher quem vai ser o oni — chamei. — No três jogamos jankenpon. Como somos seis, dividimos em dois grupos de três. O perdedor de cada trio compete para ver quem fica de oni.
Depois de nos reunirmos, ditei o ritmo:
— Um, dois, três… Jankenpon!
Coloquei pedra. As outras duas crianças colocaram papel. Perdi. Do outro lado, a derrotada foi a Sayoko. No desempate final, joguei tesoura e ela jogou pedra.
Com um sorriso de canto, aceitei o destino: eu seria o oni.
Posicionei-me no centro do pátio e cobri os olhos com as mãos. Ao redor, Hikari e os outros quatro colegas pulavam de um pé para o outro, ansiosos, os chapéus redondos presos sob o queixo.
— Iro, iro, nani iro?
— Donna iro? — responderam em coro.
Abri os olhos de repente, um sorriso travesso no rosto.
— Aka!
O caos se instalou. A terra batida não oferecia proteção; eles precisavam tocar em algo genuinamente vermelho antes que eu os alcançasse.
Hikari deu meia-volta e correu em direção ao parquinho de madeira. As correntes dos balanços balançaram quando ela tocou a base de ferro pintada de vermelho vivo.
— Salva! — gritou, aliviada, enquanto eu passava por ela.
Mais ao centro, Sayoko se viu encurralada. Eu já corria na direção dela quando senti aquela pressão familiar subir pela nuca — a mesma que sempre aparecia quando brincava com regras claras. Sem nenhuma estrutura vermelha por perto, Sayoko teve um reflexo rápido: arrancou o boné de sol de dupla face, virou o tecido do avesso e agarrou o lado vermelho com força.
— Safe!
Tive que frear bruscamente. Os tênis derraparam na areia fina, levantando uma pequena nuvem de poeira. Olhei para ela, depois para o boné vermelho na mão dela, e soltei uma gargalhada limpa.
A pressão esquisita sumiu instantaneamente.
Meu riso ecoou alto pelas paredes claras do prédio principal.
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