Chapter 09: yubikiri
Sabe quando coisas ruins acontecem e o tempo parece parar?
Era exatamente isso o que estava acontecendo em 2007.
Em 17 de abril, o medo da Yakuza explodiu no país. O prefeito de Nagasaki, Iccho Itoh, foi assassinado a tiros pelas costas em plena campanha eleitoral, bem em frente a uma estação de trem movimentada. O assassino, Tetsuya Shiroo, membro de alto escalão da Yamaguchi-gumi, motivou o crime por algo absurdo: a prefeitura se recusara a indenizá-lo por danos no carro dele durante uma obra pública. O clima de insegurança foi tão grande que meu pai ordenou que o motorista nos levasse direto da escola para o curso, e do curso para casa, sem nenhuma parada.
Em maio, o governo de Shinzo Abe começou a ruir. Investigações de desvio de verba e o suicídio do ministro da Agricultura geraram uma onda de instabilidade política e econômica. Logo em seguida, um forte terremoto atingiu a região de Niigata. Além das mortes e dos feridos, o tremor provocou um incêndio e o vazamento de água com material radioativo de uma usina nuclear.
Toda essa negatividade acumulada no país parecia um banquete para aqueles monstros. Onde antes apareciam poucos, agora era comum ver dezenas deles rastejando por toda parte.
Com o caos lá fora, meu pai ficava cada vez menos em casa. Quase não nos via mais. Eu não sabia se ele estava tentando salvar a empresa ou apenas fugindo das discussões com a minha mãe. Desde o desentendimento no teatro Bunraku, a rachadura na família nunca mais se fechara. O silêncio em casa era tenso, e os monstros pareciam adorar aquilo.
Entre todo esse caos, Hikari era a mais afetada. A distância da avó, o afastamento do pai e os boatos de perigo nas ruas a deixavam com crises de pânico e pesadelos. Toda vez que eu perguntava o que estava acontecendo, ela mudava de assunto.
Naquela noite, o silêncio da casa foi estraçalhado.
— NÃO! SAI DE PERTO! REBANHA!
O grito agudo da Hikari ecoou pelo corredor, carregado de um pavor que fez meu coração disparar. Acordei em um solavanco. Antes que eu conseguisse me levantar, ouvi a porta do quarto dela ser aberta de forma abrupta. Quando saí no corredor, vi minha mãe correndo de roupão, o rosto pálido de susto.
— Hikari! O que foi?!
Minha irmã tremia violentamente. Os olhos estavam arregalados, fixos em um ponto escuro no teto, logo acima do guarda-roupa. As lágrimas desciam sem parar.
— Ali, Okaa-sama! Olha ali! — ela apontava com o dedo trêmulo. — É um monstro! Ele tem olhos demais… Ele está se esticando para me pegar! Manda ele embora!
Segui o olhar dela. Presa na viga de madeira, havia uma criatura cinzenta e disforme, com múltiplos globos oculares que piscavam em ritmos diferentes e uma boca rasgada que babava em silêncio. Parecia se alimentar do terror da Hikari.
Miyabi suspirou fundo, os ombros caindo em frustração. Passou a mão pelos cabelos da filha, tentando manter a voz firme, mas claramente irritada pela interrupção do sono.
— Hikari, chega. Não tem absolutamente nada ali. É só a sombra do armário misturada com os seus pesadelos sobre os criminosos das notícias. Quantas vezes eu já disse para você não assistir ao jornal? Você já tem sete anos. Precisa ser forte.
— Mas ele está ali… ele se mexeu… — Hikari soluçou, encolhendo-se.
— Não tem nada ali — repetiu a mãe, fria, levantando-se. — Volte a dormir. Amanhã você tem escola.
— Okaa-sama… — a voz fina da Hikari a chamou antes que ela saísse. — O Asa-chan pode trazer o futon dele e dormir perto de mim hoje? Por favor.
Minha mãe olhou para mim, depois para ela, e soltou um estalo de língua quase imperceptível.
— Tudo bem. Mas andem logo. Não quero ouvir mais nenhum barulho.
Assim que a porta se fechou, o quarto mergulhou novamente no silêncio. Peguei meu futon e o coloquei bem perto do dela. Hikari se deitou, mas continuou encolhida, puxando a coberta até o nariz.
Esperei alguns minutos até ter certeza de que nossa mãe já estava longe. Então segurei a mãozinha trêmula dela por baixo do cobertor.
— Ele sumiu, Hi-chan. Eu olhei e não vi nada — menti, tentando manter a voz calma.
Hikari hesitou. Depois tirou os olhos de baixo da coberta e me encarou na escuridão. O olhar dela estava desesperado.
— Asa-chan… — sussurrou. — Você também pode ver eles, certo? Eu me lembro… você perguntou se eu via algo estranho quando a gente ia para o curso. Não mente. Você está sempre olhando para cima da cabeça das pessoas e para os cantos. Eu já te vi fazendo isso.
Meu sangue congelou por uma fração de segundo. Quis negar. Quis protegê-la. Mas o pavor puro nos olhos dela quebrou qualquer fachada.
— Vejo — confessei, num sussurro. — Eu vejo todos eles desde que a gente era menor.
Hikari soltou um suspiro trêmulo. Mais lágrimas desceram, mas dessa vez misturadas com alívio.
— Eles são monstros de verdade, não são? — apertou minha mão com força. — O que a gente vai fazer?
Olhei de soslaio para a criatura no teto, que continuava nos observando. Depois encarei minha irmã.
— Nós não vamos fazer nada. Enquanto a gente ignorar eles, eles não nos machucam. Mas se algum tentar alguma coisa… eu vou te proteger.
Puxei-a para um abraço apertado, forçando a cabeça dela contra o meu peito para que não olhasse mais para cima.
— Eu faço kendo, Hi-chan. O mestre disse que eu sou o melhor da turma. Eu sou seu irmão mais velho. Enquanto eu estiver por perto, nenhum monstro desses vai encostar um dedo em você.
— Você promete? Então faz um yubikiri.
Ela estendeu o dedinho. Eu uni o meu ao dela.
— Eu vou te proteger de todos os monstros enquanto estiver perto de você.
E falamos juntos:
— Yubikiri genman… Uso tsuitara, hari senbon nomasu… Yubi kitta!
No instante em que as palavras saíram e separamos os dedos, aquela sensação estranha percorreu meu corpo. Algo se encaixou. Como se a última peça finalmente tivesse entrado no lugar. Eu não sabia o que era, só sabia que estava mais perto de se tornar completo.
Hikari assentiu devagar, a respiração finalmente se acalmando. Eu olhei por cima da cabeça dela, encarando a criatura no teto com um olhar frio.
Ainda não sabia se tudo aquilo era real. Mas teria que descobrir se alucinações podiam ser compartilhadas, então nem eu nem a Hikari estávamos loucos. E se o que eu via era real… eu precisava descobrir como matar aqueles monstros.
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