7 Os Amores Suicidas de Sonezaki

 O **Capítulo 6** tem **1527 palavras**.

A rotina entre a escola e a casa dos meus avós ficava cada vez mais sufocante.  


Estar na presença do meu avô era sempre pesado. Parecia que, a cada dia, o monstro que o seguia como uma sombra estava mais perto de descobrir que eu conseguia vê-lo. A única forma de descarregar aquela frustração era no treinamento de kendo. O professor começou a me dar mais atenção, provavelmente achando que eu tinha algum talento especial. Isso só piorava a situação: eu era forçado a treinar sob os olhos vigilantes e severos do meu avô.


Para a Hikari, as coisas pareciam bem melhores. Minha avó a adorava. Além disso, minha irmã tinha um talento natural para a música. Como já era avançada no piano, aprender o koto foi muito mais fácil do que seria se fosse o primeiro instrumento.


Naquele dia, meu avô levou apenas a mim e ao meu pai para assistir a uma peça que eu considerava o “Romeu e Julieta” japonês: *Os Amores Suicidas de Sonezaki* (*Sonezaki Shinjū*). O motivo de termos ido só nós três era claro: ele queria uma conversa séria com meu pai. Eu só não entendia o que uma criança de sete anos estava fazendo no meio daquela tensão.


Antes do espetáculo começar, uma mulher apareceu no centro do palco:


— Hoje, senhores e senhoras, apresentamos uma peça que já foi considerada um grande tabu. Uma obra que, no passado, levou vários amantes a se inspirarem em seu enredo… e terminarem com suas almas em posse de Izanami. Hoje, lhes apresento: *Os Amores Suicidas de Sonezaki*.


Eu só conseguia pensar: *Como me deixaram entrar aqui?* Aquela claramente não era uma história apropriada para a minha idade.


As luzes se apagaram. Restou apenas o palco iluminado por uma luz amarelada e dramática. O som estridente do shamisen ecoou pelo salão, ditando um ritmo melancólico e pesado. As marionetes do Bunraku começaram a se mover, enquanto uma jovem de voz doce iniciava a narração.


A história começava com Tokubei, um jovem trabalhador, órfão e honesto, que se dedicava à loja de molho de soja do tio. O tio gostava tanto dele que decidiu casá-lo com a sobrinha da esposa e dar-lhe um generoso dote para abrir o próprio negócio. Parecia o futuro perfeito… até que se revelou o problema: Tokubei estava perdidamente apaixonado por Ohatsu, uma cortesã inteligente que trabalhava na casa de prazeres Temma House.


Meu avô não desviava os olhos do palco. O monstro de olhos costurados flutuava bem acima de nós, balançando-se lentamente no ritmo da música fúnebre. Eu tentava me concentrar na peça, desesperadamente buscando distrair a mente da criatura.


— Eu nunca aprovei a direção da sua carreira, Katsuro — a voz do meu avô quebrou o silêncio num sussurro ríspido. Ele nem olhou para o meu pai. — Ainda mais quando você começou a se misturar com aqueles gaijin da faculdade. Se não tivéssemos arranjado o seu casamento com a Miyabi, você provavelmente teria se casado com uma estrangeira por causa de sentimentos fracos. É assim que os homens se destroem. Você está levando os seus filhos pelo mesmo caminho naquela escola. A vida exige obrigações, ainda mais neste país. Se o Asahi não aprender a abaixar a cabeça para a tradição e para o dever, o mundo vai quebrá-lo. Por mais que você queira se enganar, esses estrangeiros americanos sempre vão nos ver como seres inferiores.


No palco, a narradora continuava. Fiel ao seu amor, Tokubei recusou o casamento. O tio enfureceu-se, deserdou-o e exigiu o dote de volta. Tokubei conseguiu recuperar o dinheiro com a madrasta para limpar a própria barra. No caminho, no entanto, encontrou um “amigo” chamado Kuheiji, que chorava dizendo que ia falir. Tokubei, de coração mole, emprestou-lhe todo o dinheiro.


Quanto mais a história avançava, menos eu prestava atenção na conversa ao meu lado. Era como se eu estivesse sendo puxado para dentro da peça. Aquela sensação estranha — a mesma que eu sentia quando brincava com regras claras — crescia dentro do peito como uma panela de pressão. Eu entrava em um transe profundo.


A narradora seguia. Tokubei foi até Ohatsu para desabafar. Enquanto conversavam, Kuheiji entrou esbanjando dinheiro. Quando Tokubei pediu o valor de volta, o “amigo” riu na cara dele, negou tudo e acusou-o publicamente de falsificar a nota promissória. Em poucos minutos, Tokubei perdeu o dinheiro, o emprego, a família e a honra. Virou um pária.


Machucado e desonrado, ele se esgueirou de volta para a casa de Ohatsu. Ela o escondeu sob o tablado de madeira da varanda. Logo depois, Kuheiji entrou no quarto, gabando-se e tentando cortejá-la com o dinheiro roubado. Ohatsu, sabendo que o amado estava ali embaixo, começou a fazer perguntas capciosas, defendendo a inocência de Tokubei.


Em meio ao meu transe, não notei que o monstro na sombra do meu avô virou o rosto lentamente em minha direção. Um sorriso distorcido se abriu no rosto pálido, como se tivesse percebido algo mudando em mim.


No palco, enquanto falava com o vilão, Ohatsu esticou o pé por baixo do quimono até tocar em Tokubei. Usando apenas o toque dos pés, eles se comunicaram. Ela pressionou o pé contra ele, perguntando em silêncio se ele estava pronto para morrer por aquele amor. Tokubei pegou o pé dela e o passou pelo próprio pescoço, como o fio de uma espada. A decisão estava tomada.


O transe se quebrou quando senti meu pai segurar meu pulso. A voz dele soou firme, porém baixa:


— Genji, eu passei muito tempo seguindo as suas ordens. Casei com quem o senhor designou e fiz tudo o que me pediu. Mas eu não estou mais sob a tutela da sua família. Cortei esse laço há muito tempo por tudo o que o senhor me fez passar. Agora quer me ver enredado nas suas mãos de novo? Os tempos estão mudando. Já lhe resta pouco tempo de vida. Não queira se afastar ainda mais de mim e de quem me apoia. Esse pouco tempo seria melhor aproveitado com os seus netos… antes que nem isso o senhor consiga mais.


Enquanto isso, a peça caminhava para o último ato.


No meio da noite fria, os dois amantes escaparam em direção ao bosque do Santuário de Sonezaki. Foi uma longa despedida da vida. Olharam para as estrelas e para as árvores, sabendo que era a última vez. Choraram pelos pais e pelos tios que deixavam para trás, mas se confortaram com a promessa de que, ao morrerem juntos, suas almas se purificariam e renasceriam unidos em uma flor de lótus no paraíso.


Ao chegarem ao coração do bosque, amarraram-se a uma árvore para que nem os corpos se separassem. Rezaram uma última oração. Com as mãos trêmulas, Tokubei cumpriu o pacto: tirou a vida de Ohatsu e, em seguida, cravou a lâmina no próprio peito. Quando o sol nasceu em Sonezaki, os dois já haviam partido, deixando para trás um mundo que não tinha espaço para o amor deles.


No final da peça, algo fundamental dentro da minha alma havia mudado. Eu não sabia explicar o que era. Estava tão concentrado e hipnotizado por aquela sensação que nem sequer notei o monstro me encarando de volta.


Os olhos dele agora estavam bem abertos por entre as costuras da pele.  

E o sorriso que exibia era horrendo.

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