Koma (versao revisada)
É estranho nascer em uma família rica e tradicional, ainda mais no centro tecnológico do Japão.
Para entender a pressão absurda que eu e a Hikari sofremos, é preciso saber o que estava acontecendo em 2005. O país finalmente começava a se recuperar da “Década Perdida” dos anos 1990. Com o boom nos setores automotivo e tecnológico, a empresa de médio porte onde meu pai trabalhava como diretor foi catapultada ao nível de multinacional. E, junto com ela, nossa família foi jogada direto no topo da elite regional.
Acho que minha mãe passou por tempos muito ruins durante a quebra econômica. Por isso, essa virada repentina mexeu tanto com a cabeça dela. O que eu mais odiava em tudo isso era ver a Hikari sendo constantemente comparada a mim. Sempre que ela não se saía tão bem nas tarefas, o olhar da minha mãe ficava mais pesado. Meu pai, apesar de quase nunca estar em casa por causa do trabalho, tentava aliviar a barra quando aparecia. Eu sabia que ele era bem mais próximo da Hikari do que de mim… e, honestamente, eu achava isso bom.
Já se passaram cinco meses desde que vi o primeiro monstro.
Desde então, estou começando a achar que sou esquizofrênico. Essas criaturas aparecem com uma frequência assustadora. Muitas delas flutuam bem em cima da cabeça das pessoas — e, até onde eu sei, só eu consigo enxergá-las. Tento ignorá-las de todas as formas. A vida real não é um mangá. Não deveria existir um mundo oculto. Passei os últimos três meses sondando a Hikari e até a minha mãe, tentando perceber qualquer reação estranha. Nada. Estou seriamente cogitando pedir para ir a um psicólogo. Só não fiz isso ainda porque sei exatamente como minha mãe reagiria vindo de uma criança de cinco anos. Provavelmente acharia que algum professor está tentando manchar a imagem da família.
Mas o que mais me preocupa não são os monstros.
É o que acontece sempre que brinco com a Hikari.
Não sei explicar direito a sensação. É como se algo estivesse se acumulando dentro de mim — uma pressão interna, pesada, prestes a explodir. Isso tem me causado uma ansiedade constante. Tenho um pressentimento ruim sobre o que pode acontecer quando esse limite estourar. E o meu maior medo, acima de tudo, é acabar prejudicando a minha irmã.
Sei que deve ser só coisa da minha cabeça…
Mas sempre fica aquela vozinha perguntando: e se não for?
— Asa-chan, vamos brincar de koma!
Ela veio correndo, estendendo as mãos gordinhas com dois piões de madeira e as cordas de barbante.
Olhei para o sorriso radiante dela e respirei fundo, engolindo a ansiedade que apertava meu peito. Eu não podia estragar a infância dela com as minhas paranóias. Balancei a cabeça, forcei o melhor sorriso de irmão mais velho que consegui e peguei um dos brinquedos.
— Tudo bem, Hi-chan. Mas eu não vou facilitar, hein?
Sentamos de joelhos no chão de madeira lisa da varanda que dava para o jardim. Enrolar o barbante ao redor do corpo cônico do pião exigia precisão. Enquanto os dedinhos da Hikari lutavam um pouco para manter a corda firme, minhas mãos de cinco anos — guiadas pela coordenação da minha mente adulta — terminaram o trabalho em poucos segundos.
— Pronta? — perguntei, posicionando o pião entre os dedos.
— Pronta! No três… Um, dois, três, vai!
Puxamos as cordas ao mesmo tempo. O pião da Hikari caiu um pouco torto, raspando na madeira antes de estabilizar em um giro barulhento e instável. O meu desceu com perfeição, girando tão rápido e centralizado que quase parecia estático.
— Ah! O meu vai cair! — ela protestou, curvando-se para torcer pelo brinquedo, que já começava a cambalear na direção do meu.
Foi nesse momento que a sensação voltou.
Aquela pressão invisível subiu pelo meu estômago, pesada, como se meu corpo fosse uma panela de pressão prestes a estourar. Concentrou-se na nuca. Olhei fixamente para os piões. Eu queria tanto que o dela continuasse girando… só para não vê-la chateada. Mas a física do mundo real não se importa com desejos.
Os dois pedaços de madeira colidiram com um estalo seco.
O pião da Hikari perdeu todo o impulso, cambaleou mais duas vezes e tombou de lado. O meu continuou girando sozinho por alguns segundos.
Hikari inflou as bochechas, soltando um suspiro frustrado. Eu senti uma gota de suor frio escorrer pela têmpora. A pressão no meu peito não explodiu. Ela apenas recuou, deixando um gosto amargo de ansiedade na boca.
Era tudo coisa da minha cabeça.
Tinha que ser.
— Não vale, você gira muito forte, Asa-chan — ela reclamou, mas logo sorriu, lembrando do trato. — Agora você me deve o bombom do estoque secreto!
— Tudo bem, tudo bem… vamos lá pegar.
Me levantei. As pernas ainda estavam levemente trêmulas pelo estresse acumulado.
— Asahi. Hikari. Venham aqui.
A voz da minha mãe não tinha o tom estridente de sempre, mas carregava um nervosismo contido. Ela apontou para o tatame, gesticulando para que nos sentássemos de joelhos diante dela. Hikari me olhou de soslaio, os ombros encolhidos e os dedos apertando o tecido do vestido, claramente temendo outra bronca monumental.
Minha mãe respirou fundo, ajeitando a postura impecável do quimono doméstico, e nos encarou. Por um instante, o olhar dela pareceu suavizar.
— Vocês sabem que eu amo vocês. Por mais dura que eu seja, tudo o que faço é pelo bem de vocês e desta família — ela começou, ajeitando uma mecha de cabelo da Hikari atrás da orelha. Um gesto genuíno de carinho que contrastava com a rigidez das palavras. Em seguida, seus olhos severos se voltaram para mim. — Asahi, eu sei que você protege muito a sua irmã. Isso é algo que eu realmente admiro em você. Mostra que você tem o senso de responsabilidade de um homem. Mas você também precisa deixar ela aprender a se virar sozinha. Se você fizer tudo por ela, a Hikari nunca vai crescer.
Enquanto ela falava, meus olhos se fixaram em sua testa.
Aquela silhueta borrada e grotesca que eu vira cinco meses atrás agora estava mais nítida. Parecia se agitar, esticando pequenos tentáculos de fumaça escura conforme o tom de voz dela subia. Eu tentava ignorar o máximo possível. O monstro se contorcia, como se estivesse se alimentando diretamente das emoções dela. Dava para ver no vinco entre suas sobrancelhas o medo constante do julgamento dos outros. Para ela, amor era sinônimo de segurança social. E a segurança social dependia de sermos perfeitos.
Ela apoiou as mãos espalmadas sobre as coxas. A expressão endureceu novamente.
— Daqui a dois dias vocês farão as provas de admissão. Eu não quero que envergonhem a nossa família. Entendido?
— Sim, Okaa-san — respondemos em uníssono, curvando as cabeças.
O monstro acima dela se contraiu, voltando a ser apenas uma sombra discreta quando nossa obediência acalmou temporariamente o peito dela. Eu engoli em seco, sentindo o peso daquela atmosfera.
Minha mãe não era má.
Ela estava apenas sendo devorada por um estresse que eu mal conseguia compreender… e que, de alguma forma bizarra, estava se materializando diante dos meus olhos.
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